ATENÇÃO: LIVRO "PRONTO PRA GUERRA" DISPONÍVEL PARA VENDA!
Contato para cursos, workshops, palestras e consultorias: leandropaiva@prontopraguerra.com.br

Lutadores: Recomendações para ingestão de líquidos



Em outra oportunidade neste Blog já abordamos a questão do consumo de líquidos pelos atletas de modalidades de combate.

Neste tópico reproduziremos os trechos mais interessantes de um artigo recente no qual os autores trataram com profundidade a parte de ingestão de líquidos, inclusive, com recomendações práticas que podem ser muito úteis.


Leandro Paiva



Título: Recomendações práticas para a ingestão de líquidos em lutadores

Autores: Ciro José Brito; Ana Carolina Pinheiro Volp; Edmar Lacerda Mendes; Anderson Carlos Marçal; Danilo Ribeiro Guerra; Afrânio de Andrade Bastos.

Fonte: efdeportes.com


Introdução

A demanda hídrica durante treinamentos para lutadores pode ser superior às demais modalidades desportivas, uma vez que neste tipo de modalidade, a vestimenta utilizada pelos atletas muitas vezes dificultam a evaporação do suor (BRITO; MARINS, 2005). Os principais pontos de perda de calor corporal são as mãos, pés e cabeça (MARINS, 2000). Na maioria das modalidades de luta estes locais fica descoberto, o que facilita a perda de calor corporal. No entanto, em algumas modalidades são utilizados protetores em pelo menos um destes três sítios, enquadram neste tipo de modalidade o boxe, tae-kwon-do e caratê.

Além disso, os uniformes utilizados em muitas das modalidades de luta contribuem para o acúmulo de calor corporal, o que resulta no aumento da temperatura corpórea. Neste sentido merecem atenção especial os lutadores de judô e jiu-jitsu, pois os uniformes utilizados nestas modalidades impõem elevado estresse térmico aos atletas. Os quimonos destas modalidades são feitos de algodão trançado, para adultos o uniforme pesa em média 3kg, isto quando estão secos, a medida que o atleta se desidrata durante um treinamento os uniformes tendem a pesar cada vez mais (Brito e Marins, 2005).

Além do estresse térmico imposto pelo equipamento, o ambiente também contribui para o aumento das necessidades de reposição hídrica durante os treinamentos de lutas. Os locais de treinamentos são fechados e muitos não dispõem de equipamento de refrigeração, fazendo com que a perda do calor corporal durante o treino seja dificultada (BRITO, 2005).

Brito e Marins (2002) observaram o variação do peso corporal de judocas em um treinamento com duração aproximada de 100 minutos (início 18:00 horas e término às 19:40 horas), onde a temperatura variou entre 28,7 e 26,8°C e umidade relativa do ar entre 57 e 51%. No dojo onde ocorreu o treinamento não havia janelas e nem refrigeração. A diferença absoluta de peso observada entre o início e fim do treinamento foi de 1,75kg ± 0,41, sendo que, aproximadamente 20% dos atletas terminaram o treinamento com desidratação superior a 2%.

Em outro estudo com judocas, Brito (2005) observou desidratação absoluta próxima a 4% em um treinamento com duração de 120 minutos (início 9:00 horas e término às 11:00 horas). O treinamento foi realizado em ambiente com pouca ventilação.

Apesar do maior tempo de atividade no segundo estudo (120 minutos), observou-se grande diferença entre o percentual de desidratação alcançado pelos atletas entre os estudos. No primeiro estudo (BRITO e MARINS, 2002) apesar da temperatura mais elevada, a umidade relativa do ar permaneceu mais baixa, facilitando a evaporação do suor. No segundo, apesar da temperatura mais amena a umidade permaneceu mais elevada, o que dificulta a conversão do suor em vapor de água, fazendo com que a perda hídrica fosse maior.

É importante destacar que a diferença entre a desidratação observada nos estudos não resultou somente da maior umidade observada no segundo, pois, os treinamentos foram realizados em populações, intensidades e períodos do dia diferentes.

Influência negativa da desidratação no desempenho

Como as competições de lutas são categorizadas pelo peso corporal, muitos atletas utilizam de desidratação forçada para se encaixarem na categoria de peso inferior (FABRINI et al., 2002; OPPLIGER et al., 2003).

Seja forçada para a perda de peso (OPPLIGER et al., 2003) ou decorrente do treinamento (BRITO, 2005) a desidratação resulta em diversos efeitos adversos ao desempenho desportivo e a saúde como: diminuição do volume plasmático; aumento da freqüência cardíaca sub-máxima; redução do débito cardíaco; redução do volume sistólico; aumento do fluxo sanguíneo cutâneo; diminuição da produção de suor; redução do fluxo sanguíneo nos músculos ativos; decréscimo do fluxo sanguíneo no fígado; aumento da concentração de lactato; aumento do Índice de Percepção de Esforço (IPE); redução do tempo total de realização do exercício; diminuição do VO2max; aumento da temperatura retal; diminuição da pressão arterial; diminuição do rendimento mental; alterações gastrintestinais; aumento da osmolaridade sanguínea; maior solicitação do glicogênio muscular; lesões por calor; maior risco de hipertermia; e maior incidência de câimbras (MARINS et al., 2000).

Recomendações para lutadores

Baseado nos pressupostos descritos anteriormente e efeitos negativos da desidratação no desempenho, sugere-se a seguir diferentes estratégias que podem ser adotadas nas diferentes modalidades de lutas.

Treinamento

Em geral os treinamentos de lutas apresentam sessões que variam entre 90 e 120 minutos, isto faz com que a estratégia de reposição hidro-energética a ser adotada entre as modalidades seja similar.

Antes do treino

Um método simples de estabelecer a taxa ideal de reposição hídrica é pesar os atletas antes e depois dos treinos. A demanda de reposição hídrica poderá ser estabelecida pela seguinte equação:


Reposição(L)=[massa corporal final(kg) – massa corporal inicial(kg)]

A coloração da urina também pode ser utilizada para verificar a necessidade de reposição antes do treino. Caso a coloração da urina se apresente escura o lutador deve consumir pelo menos 400mL de líquidos antes de iniciar o treino.

Treinamentos das modalidades de luta são caracterizados por predominância aeróbica, com picos de atividade anaeróbia lática e alática (DEGOUTTE et al., 2003). Desta forma, o consumo de solução carboidratada pode ser benéfico para o desempenho, uma vez que nos picos de atividade anaeróbia lática demanda-se maior catabolismo de glicose (DEGOUTTE et al., 2003; DEGOUTTE et al., 2004).

Durante o treino

Ao longo do treinamento, a reposição hídrica será fundamental devido o estresse térmico advindo da modalidade como discutido anteriormente. A reposição hídrica deve ser realizada á medida em que os líquidos corporais são perdidos durante o treinamento. Brito (2005) observou perda hídrica próxima a 1,6 litros por hora durante o treinamento de judô. Nesta cota de desidratação a reposição deve girar em torno de 400mL a cada 15 minutos de treinamento.

Quando a perda hídrica for inferior a 500mL/hora, a reposição energética pode ocorrer na forma de gel, uma vez que estes são absorvidos rapidamente e não causam perturbação gástrica (LAROSA, 2005).

Após o treino

O consumo de gel pode ser recomendado após o treino, quando a sessão ultrapassar 90 minutos de duração, este tipo de estratégia visa acelerar a reposição do glicogênio (LAROSA, 2005). O consumo de carboidratos complexos em excesso não é recomendado nos primeiros 30 minutos pós-atividade, uma vez que modalidades de lutas requerem elevado metabolismo muscular tanto de membros superiores, quanto inferiores (FRANCHINI, 2001). Esta intensa atividade resulta em grande desvio do fluxo sanguíneo para regiões de maior demanda energética, reduzindo o fluxo sanguíneo para o trato-gastrintestinal (MARINS, 2000).

Após o treino, recomendam-se a adição de pequena quantidade de aminoácidos as soluções de reidratação, uma vez que em modalidades como o judô, ocorre significativo catabolismo de proteínas durante o treino (DEGOUTTE; JOUANEL; FILAIRE, 2003; DEGOUTTE; JOUANEL; FILAIRE, 2004). Os aminoácidos adicionados podem ser BCAA’s, glutamina e arginina, uma vez que o treinamento de judô mostrou deprimir o sistema imunológico dos atletas (BRITO, 2005). Para as demais modalidades de luta ainda não foram realizadas tais observações, entretanto, como os treinos têm duração similar, as demandas energéticas podem se equivaler.

Competições

Diferentemente dos treinamentos das modalidades de lutas, durante as competições o tempo de atividade varia consideravelmente, uma vez que, em diversas modalidades, uma técnica aplicada com perfeição determina a vitória sobre o oponente. Enquadra neste tipo de luta a maioria das modalidades praticadas no Brasil, como caratê, judô, jiu-jitsu, boxe, tae-kwon-do, kick-boxe. Assim sendo, a estratégia de reposição hidro-energética varia de acordo com o nível dos lutadores. Uma luta para faixas marrons no jiu-jitsu, por exemplo, pode alcançar 7 minutos caso não haja finalização.

Por outro lado, uma rápida finalização pode ocorrer com menos de 1 minuto de luta. No primeiro caso, o atleta possivelmente necessitará repor parte dos líquidos durante o intervalo para a próxima luta, no segundo caso, dificilmente o atleta necessitará repor líquidos, uma vez que o esforço desprendido não aumentará a produção de calor a ponto de produzir desidratação significativa. Serão apresentadas a seguir estratégias de acordo com as características das modalidades:

Judô e jiu-jitsu

Neste tipo de competição, o tempo de duração das lutas varia de acordo com o sexo, idade e nível de graduação dos atletas. Judocas adultos competem 5 minutos de luta independente do nível de graduação. Lutas de jiu-jitsu para faixa preta apresentam duração total de 9 minutos. Cabe destacar que em ambas as modalidades o cronômetro é parado assim que o arbitro solicite, sendo estas interrupções mais freqüentes na luta de judô, fazendo com que o tempo total de luta ultrapasse 9 minutos.

Para estas modalidades, o consumo de líquidos antes e durante os intervalos de lutas é recomendado, uma vez que o atleta não poderá se reidratar durante a luta. Não havendo desgaste muito elevado, como nas lutas definidas em menos de 1 minuto, o atleta não necessitará repor energia. Após as lutas, mesmo o atleta eliminando rapidamente os adversários, o tempo total da competição (lutas + intervalos), facilmente ultrapassa 60 minutos. Fazendo com que a necessidade de reposição líquida do lutador seja aumentada após a competição.

Após as competições destas modalidades recomenda-se também o consumo de pequena quantidade de aminoácidos adicionados à solução de reposição hidro-energética. Atenção especial deve se dada aos primeiros 30 minutos pós-competição, pois o consumo de carboidratos de fácil absorção (bebida carboidratada e gel) neste período será fundamental para a rápida recomposição do glicogênio.

Caratê, tae-kwon-do, kick-boxe e boxe

Antes das competições, assim com nas modalidades citadas anteriormente, o consumo de carboidratos é recomendado nos minutos que antecedem as lutas para se maximizar os estoques de energia. Nestas modalidades os atletas e treinadores podem estabelecer estratégias de reposição durante os combates, uma vez que estes são divididos em rounds, aproximadamente 200mL de líquidos podem ser ingeridos durante o intervalo sem que haja comprometimento ao esvaziamento gastrintestinal. Após as competições, a reposição hidro-energética pode ser similar à adotada pelas modalidades de judô e jiu-jitsu.

Considerações finais

A ausência de reposição hídrica afeta a capacidade de desempenho de lutadores durante os treinamentos ou competições. Dependendo da duração da atividade a reposição energética também se faz necessária. Neste sentido, a adoção de estratégias de reposição hidro-energética por parte dos lutadores e treinadores auxiliará no aprimoramento da capacidade e desempenho, o que pode ser o diferencial quando o nível técnico dos atletas se equivale.
Leia mais...

Related Posts with Thumbnails

Luta Corporal Indígena



Não sabemos se o principal motivo é pela nossa latente descendência amazônica e fisionomia indígena aparente, mas o fato é que temos verdadeiro fascínio pela cultura étnica. Em especial, pelas culturas de origem ameríndia e africana, das quais colecionamos artefatos artesanais.

Vale ressaltar que, nesse contexto, as lutas corporais estão inseridas como papel relevante dentro de ritos e crenças que constituem a cara, corpo e voz desses povos.

Assim, neste artigo, optamos por versar sobre as Lutas Corporais Indígenas. Em outra oportunidade, já havíamos abordado neste blog que, bem antes do surgimento do Brasilian Jiu-Jítsu, Capoeira e, até mesmo das diversas lutas que aportaram no Brasil, já existia por aqui outras formas de luta.

De fato, as lutas mais antigas praticadas no Brasil podem ser consideradas, a princípio, as Lutas Corporais Indígenas que, diferente do que se imagina, em vez de importante fundamentação marcial (com técnicas bem organizadas para utilização em guerras), foram e são, majoritariamente, reveladas em disputas ritual-comemorativas.

Se considerarmos alguns registros antropológicos, nos quais revelaram presença de nativos organizados em tribos anteriores a 5.000 a.C, bem antes do descobrimento do Brasil, seguramente podemos afirmar que as Lutas Corporais Indígenas são as mais antigas praticadas em solo brasileiro.

Na atualidade, são realizadas por homens e mulheres, e está inserida na cultura de diversos povos indígenas como os Xinguanos, Bakairi e os Xavante, os quais realizam a Luta denominada de "Huka Huka".

Os Gavião Kyikatêjê/Parakatêye, do Pará, praticam o "Aipenkuit" e os Karajá praticam o "Idjassú".

Segundo especialistas da FUNAI, as Lutas Corporais Indígenas foram inseridas nos Jogos Indígenas desde a primeira edição, apenas como apresentação. Sempre foi grande o desejo de realizar uma competição de lutas corporais entre diversas tribos. Entretanto, essa possibilidade é pouco provável em função da grande diversidade de estilos de luta e técnica. Enquanto algumas etnias iniciam a lutam em pé, outras adotam o modelo de iniciar com os lutadores ajoelhados no chão, caso do Huka Huka.

O Huka Huka inicia quando o "dono da luta" caminha até o centro da arena de luta e chama os adversários pelo nome. Os lutadores se ajoelham girando em círculo anti-horário, até se entreolharem e se agarrarem, tentando projetar o adversário ao solo.

No Idjassú, os atletas iniciam a luta em pé, se agarrando pela cintura, até que um deles consiga projetar o adversário. O atleta vencedor abre os braços e dança em volta do oponente, cantando e imitando uma ave.

O Aipenkuit têm certa semelhança no desenvolvimento da luta com o Idjassú. Não existe um juiz, e sim um observador indígena denominado de "dono da luta", cabendo aos atletas, reconhecer a derrota, vitória ou empate.

Apesar de não existir pelas etnias prêmio para o vencedor da luta, há reconhecimento e respeito de todos. Não obstante, especificamente no caso do Huka Huka, aos grandes campeões é reservada a honra de participar ativamente do ritual denominado de Kwarup, no qual podem retirar um dos cintos de algodão de um tronco de árvore de mesma nomenclatura dada ao ritual.

O Kwarup é um ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu. O rito é centrado na figura de Mawutzinin, considerado o primeiro homem do mundo em sua mitologia. Como citado, Kwarup também é o nome de uma madeira. Originalmente, teria sido um rito que objetivava trazer os mortos de volta à vida.

Tipicamente o ritual inicia com a chegada de grupos de índios de diversas aldeias, em meio a muitas danças. Depois alguns índios vão ao mato e cortam um tronco de kwarup e constroem uma cabana de palha em frente à Casa dos Homens, e sob ela fincam o tronco no chão.

É na manhã seguinte que se inicia a outra etapa do ritual. Os índios se aglomeram e começam as lutas de Huka Huka, primeiro, entre os campeões das diferentes tribos e, depois, lutas simultâneas, principalmente, entre indivíduos mais jovens que ainda não se firmaram como bons lutadores. Existem relatos de que existem momentos nos quais haja perto de 30 lutadores, simultaneamente, em atividade.

É observado que muitos lutadores se pintam com traços de peixe no corpo e outros com traços de onça. As pinturas fazem menções à narrativa mitológica indicando a luta dos peixes contra as onças.

Para concluir e ilustrar melhor este artigo adicionamos adiante material audiovisual para apreciação dos leitores deste Blog.


Leandro Paiva



Referências

1) Revista USP, Dossiê Surgimento do Homem na América, n.34, junho/julho/agosto, 1997;

2) www.funai.gov.br


Leia mais...

Related Posts with Thumbnails

A Ciência das Artes Marciais: Adrenalina no MMA




Segue material contendo dados de pesquisa até então inédita realizada com atletas de MMA. Nela, os pesquisadores desejavam descobrir se a adrenalina natural produzida pelo corpo do atleta, tinha maior ou menor capacidade de elevar atributos físicos quando comparada a administração de adrenalina injetável.

Vale a pena conferir e assistir, pois como citado anteriormente, esta pesquisa é inédita.




Leandro Paiva





Leia mais...

Related Posts with Thumbnails

Prática da Psicologia nas Lutas e Artes Marciais

Características de Personalidade de Atletas de Alto Rendimento Praticantes de Taekwondo e Mixed Martial Arts.






Por Jorge Luís Ribeiro (Marujo)*.



1- Qual a característica (emocional – o jeito de ser) de personalidade de um atleta deTaekwondo e Mixed Martial Arts (qual a diferença em relação a atletas de outros esportes)?


Não existem estudos que definem o padrão geral para atletas de alto rendimento.


No campo da educação física e de treinamento esportivo as equipes técnicas convenciona-se a dizer que atletas de alto desempenho devem ser: dedicados, perseverantes, disciplinados, com alta resistência a frustrações, resilientes, etc.



Contudo, a história é rica em exemplos de atletas excepcionais, podemos citar o ex-jogador de futebol Romário de Souza Farias, que não reúne às características convencionadas. Romário, em sua carreira, conquistou todos os prêmios e títulos possíveis, incluindo uma medalha olímpica, marcou mais de 1.000 gols e foi eleito o melhor jogador do mundo por duas vezes consecutivas. Todavia, era conhecido por dormir demais, ser indisciplinado e preguiçoso, especialmente para os treinamentos físicos.

Percebe-se a falta de estudos específicos para definir o perfil de personalidade de atletas de alto desempenho. No caso dos atletas de Taekwondo e MMA (Mixed Martial Arts), podemos imaginar/supor algumas características semelhantes às levantadas pelas equipes técnicas, contudo, encontraríamos exemplos que não se enquadrariam nestas características, e seriam mais semelhantes ao do ex- jogador Romário. Os atletas são diferentes tanto quanto à sua subjetividade e parecidos em função do padrão de comportamento que a sua prática esportiva exige.


2- Através das pesquisas e avaliações psicológicas, pode-se comprovar que o estado emocional de um atleta influi no resultado de uma luta?


Sim, existem diversos fatores psicológicos que podem influenciar de forma positiva ou negativa no resultado de uma competição (luta) e também dos treinamentos. As pesquisas de avaliação psicológica há bastante tempo relacionam características individuais e desempenho em diversas atividades. O estado emocional ou a capacidade de lidar/suportar pressões é determinante conhecido do desempenho, inclusive em testes de conhecimentos, como o vestibular. Qualquer atividade que exija concentração em longos períodos será afetada pelo estado emocional do sujeito, no nosso caso do atleta.


Em diversos esportes profissionais a ansiedade é referida como fator complicador para a obtenção do melhor desempenho do atleta. Não podemos dizer que essa afirmação é válida no contexto das disputas de Taekwondo, pois cada indivíduo reage de forma diferente frente a determinadas situações. Factual é que identificar altos níveis de estresse constantes, instabilidade de humor, baixo nível de evocação e atenção (concentrada, difusa e sustentada), ruminação de pensamentos negativos, ansiedade pré-competitiva e outros fatores psicológicos podem, quando manejados por um profissional especialista em psicologia do esporte, contribuir para melhorar o aproveitamento nos treinos, e conseqüentemente aumentar o rendimento do atleta e de toda equipe, agregando valores diferenciados ao atleta e influenciar diretamente em seu rendimento durante a competição/ combate. Por exemplo, a ansiedade, que é conhecida como a grande vilã de atletas e equipes. É possível afirmar que certo grau de ansiedade, de desejo que aconteça logo o desfecho de toda a ação planejada durante o período de treinamentos: possa ser desfavorável? Ou podemos trabalhá-la positivamente?



Os dados pesquisados indicam que sim para as duas variáveis, mas ainda não podem ser generalizados, pois cada atleta tem seu limiar ótimo para tais variáveis, ou seja, existe uma área limítrofe, uma faixa de controle para cada indivíduo/atleta. Identificar o momento ideal de explosão, determinar como essa ansiedade e outras variáveis psicológicas serão descarregadas em forma de energia positiva, é uma das funções da equipe multidisciplinar: psicólogo do esporte, treinadores/técnicos, preparador físico e outros. Faz parte da tática a ser empregada no combate.


3- Qual seria o melhor estado emocional e psicológico que o atleta deveria subir ao Tatame? O que e como fazer para ele atingir este estado emocional e psicológico ideal? O atleta que entra com a adrenalina lá embaixo, tem mais chances de vencer ou perder? E o que entra com raiva do adversário? Este pode acabar prejudicando todo o seu trabalho mental para a luta?


O estado emocional mais apropriado para um atleta não é necessariamente o mesmo que de outro atleta na mesma modalidade. Por exemplo: alguns pilotos de fórmula 1 dormem no cockpit do veículo até minutos antes da largada, enquanto outros esperam para entrar no carro no último minuto. Nas Artes Marciais observamos situações semelhantes, enquanto alguns atletas dormem até momentos antes do combate/luta (por exemplo, os irmãos Antônio Rodrigo Nogueira “Minotauro” e Antônio Rogério Nogueira “Minotouro”. Outros precisam ser ativados horas antes para atingir seu nível ótimo de adrenalina e outros hormônios do sistema endócrino. Qualquer atleta que esteja com seus níveis psicofisiológicos descompensados tem suas chances de vitória diminuídas.



Da mesma forma, ter raiva ou sentir raiva do adversário pode ser positivo ou negativo, depende das características específicas do atleta. O aspecto positivo é que essa raiva pode ser convertida em força de explosão, o que ajudaria esse atleta a livrar-se de uma situação desconfortável ou liquidar seu adversário; negativa é que poderia gerar um estado de descontrole emocional, levando-o à impulsividade na tomada de decisões colocando toda a estratégia em risco e conseqüentemente perder o combate. Situação esta que pode ser um gatilho psicológico, para que aconteça o que o ex-atletae comentarista do canal Combate Carlão Barreto denomina de “buracos no jogo”, quando se refere à oscilação rítmica na qualidade e no rendimento do atleta. É necessário conhecer o perfil de cada atleta para definir qual a melhor estratégia para ele, a fim de promover uma atuação consistente, robusta e dinâmica; para que se possa identificar com maior clareza e rapidez os pontos cegos dos adversários.



4- O atleta que faz acompanhamento com psicólogo do esporte para suas lutas, leva vantagem sobre aqueles que não trabalham a parte psicológica?


O atleta que possui um acompanhamento psicológico, um programa de psicodiagnóstico esportivo, que nas Artes Marciais podemos assim chamar de Psicofight (psicodiagnóstico da psicologia do esporte de combate), certamente terá larga vantagem sobre o atleta sem orientação e acompanhamento psicológico. Visto que o acompanhamento psicológico não é limitado somente para as atividades esportivas, este trabalho engloba toda a rotina cotidiana do atleta, visa dar suporte: organizacionais, das relações sociais e subjetivas/afetivas/emocionais, que possam desestabilizar seu controle emocional diante de derrotas e também de vitórias importantes. Por exemplo, a conquista de um título muito importante coloca o atleta em posição de destaque, ou seja, de coadjuvante passa a ser o centro da atenção, o alvo a ser batido, ele estará na mira de muitos que estão treinando. Também a dificuldade de lidar com o sucesso e a elevação do poder aquisitivo podem causar distúrbios emocionais, afetivos e de comportamento em suas relações sociais.


Podemos observar o fenômeno acontecendo no futebol e, em um êxodo ao revés, o jogador Adriano (Flamengo), abandonou o futebol europeu, com toda estrutura e qualidade de vida material, retornando às suas origens para restabelecer seu referencial de vida e controle emocional, e outros o sucederam. Nas Artes Marciais, (Taekwondo) observamos o mesmo fenômeno, com atletas que passam por longas temporadas de viagens de treinamentos no exterior e no MMA, já existem casos de atletas que estão no exterior há alguns anos, apresentando sinais der estresse, proveniente do distanciamento de seus familiares, do circulo de amizades e das diferenças culturais.


5- O atleta que vem de derrota e precisa vencer, pode entrar com o estado emocional (psicológico) abalado?


Certamente, existem auto-exigências conscientes que podem desencadear diversos tipos de reações psicofisiológicas, dificultando ou até determinando baixo nível de desempenho, que o levará a derrota. Contudo, essas prevalências conscientes não representam o principal obstáculo para a retomada ou manutenção do sucesso; o risco maior pode ser inconsciente. Segundo Zanluchi, “em uma situação onde uma conquista muito almejada, e pela qual se lutou tanto, e esta preste a concretizar tendo os principais obstáculos vencidos, o maior adversário a ser subjugado pode ser o próprio atleta”. É comum ouvir essa frase: “ Perdi pra mim mesmo”.



Por um simples detalhe, um erro primário, algo extremamente inesperado, põe-se tudo por água abaixo, deixando a vitória escorrer “por entre os dedos”. Destino? Fatalidade? Azar? Ou poderíamos chamar de “auto-sabotagem”? A respeito desse risco Sigmund Freud (1916- Vol. XIV, p. 357-374) dedica o capitulo “os arruinados pelo êxito”. No texto em questão o autor aborda uma questão com a qual se confrontou em sua prática clínica e que chamou muito a sua atenção. Freud relatava exemplos de pessoas que, ao terem em mãos a chance de realizarem seus mais profundos desejos, não foram capazes de levá-los a termo.



“Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem precisamente no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge a realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não há dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem” (FREUD, 1974, vol. XIV, p. 357).



A idéia pode parecer absurda, mas o fato de uma pessoa boicotar-se, ainda que inconscientemente, aparece freqüentemente. Podemos acompanhar pela mídia tal acontecimento em tempo real, como ocorreu com atletas brasileiros em competições esportivas de alto nível, tais como: final de copa do mundo de futebol de 1998, na França, e jogos olímpicos com equipes de ginástica.



“O trabalho analítico não encontra dificuldade alguma em demonstrar que não são forças da consciência que proíbem o indivíduo de obter a tão almejada vantagem proveniente da feliz mudança da realidade. Constitui tarefa difícil, contudo descobrir a essência e a origem dessas tendências julgadoras e punitivas, cuja existência, onde não esperamos encontrá-las, tantas vezes nos surpreende (FREUD, 1974, vol. XIV,p. 357).



O parâmetro que relaciona a dificuldade de ser atleta e atingir o status de vencedor está na dedicação do atleta em seus treinamentos, confiança na equipe que o acompanha e na disposição de “dar-se a conhecer”.


6- E aquele que nunca perdeu, ele entra sempre com medo de amargar a primeira derrota? Isso pode prejudicar seu rendimento?


É natural que ocorram pensamentos catastróficos, todos nós, “neuróticos saudáveis”, temos este tipo de pensamento sem muita freqüência. Pensar em perder a luta, ser finalizado, ou sofrer um golpe contundente e apagar, pode influenciar no rendimento durante os treinamentos sob dois aspectos: negativo, pode causar uma situação de desmotivação e baixa concentração, para executar tarefas específicas durante a preparação, principalmente as repetitivas que demandam o emprego de alta concentração, impedindo a execução dos movimentos com margem mínima de erros; e do ponto de vista positivo, percebendo tais pensamentos, sentimentos e reações fisiológicas como pontos a serem trabalhados para desenvolvimento de habilidade de comportamento adaptativo. A partir do bom manejo da situação, variáveis psicológica, por toda equipe multiprofissional que assiste o atleta, pode-se transformar o medo da derrota em ferramenta de sucesso.


Entrar no tatame, ou em qualquer outra área de competição, pensando em amargar o sabor da derrota pode ser um sintoma psicológico de ansiedade/angústia real e de aniquilamento: um estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de que algum tipo de perigo que se revela indeterminado e impreciso diante do qual o indivíduo se julga indefeso frente à possível desconstrução de sua identidade e de perigo ao seu corpo.


E quando esse atleta está no topo do ranking ou destacado dos demais atletas, suas chances de se manter lá em cima diminui muito em relação ao seu adversário, quando apresenta tais sintomas. Podemos pensar que a distância entre a vitória e a derrota se encurtam quando se delega o mesmo grau de importância para elas; é importante conhecer as limitações físicas e o quanto se pode exigir do corpo em termos de rendimento, no entanto são os fatores psicológicos de cada um que irão determinar o quantum de exigências o corpo irá suportar.


Todavia, um atleta equilibrado emocionalmente, tem plena consciência de que ninguém permanece por muito tempo invicto, salvo casos excepcionais, tais como: o mestre/atleta Royce Gracie e o piloto de formula 1, Michael Schumacher, Anderson Silva, porém todos já provaram o sabor da derrota algum dia, e usam os momentos desfavoráveis em suas carreiras para reverter em crescimento pessoal e aprendizado para aprimoramento de suas técnicas de atuação.



7– O que é possível fazer para melhorar os processos de treinamento, seleção e evolução de atletas de Artes Marciais?


Pesquisas realizadas refletido esta preocupação. Até o momento não existem estudos específicos que definam padrões de personalidade de atletas de alto desempenho no Taekwondo. Porem o realizarmos testes avaliação psicológica com atletas de alto nível, podemos definir se existem e quais são as características de personalidade destes atletas (por exemplo, energia, capacidade de relacionamento interpessoal, auto-controle, respeito à autoridade/modelos, padrões de raiva e controle da raiva) e como essas características podem ser trabalhadas em atletas que desejam chegar ao nível mais alto do esporte que desempenha.



Pode-se dizer que os trabalhos de pesquisa e avaliação psicológica nas artes Marciais, vem atender em parte demandas já citadas nos trabalhos do pioneiro na psicologia do esporte com foco em artes marciais Prof. Dr. João Alberto Barreto e do escritor Leandro Paiva, que dedica um capitulo de seu livro à preparação psicológica no MMA, dando ênfase à presença do psicólogo do esporte como parte integrante da equipe multiprofissional na formação de atletas de alto nível nas Artes Marciais.



Muitas vezes, em ciência, não é possível dar respostas categóricas (do tipo sim/não, certo/errado). Porém com dedicação e sensatez é possível ter respostas satisfatórias.



*Jorge Luís Ribeiro “Marujo”

Psicólogo Clínico e do Esporte

CRP:08/16116

marujopsi@hotmail.com

Cel. Tim: 43-99195174
Leia mais...

Related Posts with Thumbnails
Template Rounders modificado por ::Blogger'SPhera::
| 2008 |